CAPÍTULO 13 e último capítulo
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Praça São João Baptista |
Subindo as
avenidas e chegados a metade da avenida D. Nuno Alvares Pereira, vi-me
novamente na praça São João Baptista para, daquela vez, atravessar totalmente a
praça da Liberdade, na qual estava montado um palco para um qualquer concerto
que ia ali acontecer. Passando pelo forum
Romeu Correia, finalmente,
chegamos à relva: o verde estendia-se
à nossa frente, descendo íngreme até um caminho de cor guerná, para, novamente,
tornar a subir numa colina pouco elevada do lado em que estávamos. Do outro
lado, descia também ela íngreme até à avenida Rainha D. Leonor - avenida que
servia de fronteira entre a freguesia de Almada e a freguesia da Cova da
Piedade.
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Parque Urbano Comandante Julio Ferraz |
Haviam ali crianças
a brincarem com os pais, uma vez que, áquela hora, o Sol começara a perder a
força brutal com que estivera a açoitar a cidade todo o dia... mas ainda estar
terrivelmente quente. Como as enormes árvores daquele lugar - com mais de quinze
metros de altura - despejavam uma sombra cúmplice que ajudava a arrefecer a
fraca brisa que se fazia sentir, a temperatura já estava boa para as crianças brincarem.
Haviam uns velhotes sentados num dos raros bancos de jardim que já haviam
conquistado a sombra jogada pelos altos prédios que circundavam a praça da
Liberdade... toda a relva começava a
fervilhar com a vida saltitante de bolas... com pequenos grupos de jovens que
se sentavam na relva procurando a sombra... com os dois, ou três casais que
romantizavam o ambiente com beijos quentes de Verão, com carícias públicas e
descontraídas e com segredos amorosos aos ouvidos femininos que se encolhiam em
cócegas e risos que se deixavam ouvir até onde eu e o Miguel estávamos,
parados... em contemplação... admirando a relva
que naquele momento nos fazia lembrar o
que a relva tinha sido em tempos de
nossa juventude.
A relva era o modo como sempre chamáramos
aquele grande espaço relvado, mesmo antes dele ter sido baptizado como Parque Urbano Comandante Julio Ferraz.
“- Lembras-te como
é que isto era há uns anos atrás, Miguel?”
“- O quê?!” -
perguntou-me quase como que ofendido. "- Então não lembro?! Parava aqui
uma grande parte da juventude de Almada...” - parou como que a olhar o vazio, português
saudosista como só ele, tipicamente, era.
"- O que é que
aconteceu, afinal? Para onde é que foi o pessoal todo?!" - consciencializou
ele uma vez mais a rápida transformação das coisas há sua volta.
“- Lembras-te
daqueles anos...” - continuei eu – “... em que paravam às dezenas e dezenas de
jovens ali em baixo: passou-se a fazer ali, há mostra de todo o mundo, o que
maior parte fazia às escondidas dos pais, da polícia e do resto do povo.”
“- Era o pessoal todo deitado no chão, uns punk’s, outros hippies... os góticos, os heavy-metal's,
os rock billy's, os surf's e os betinhos...”
“- Os de estilo
clássico...”
“- Os
inclassificáveis...”
“- ... ou
simplesmente, os mal vestidos!” - rimos as gargalhadas.
“... e os
loucos!!!”
“- Sim, não
podemos esquecer personagens como o Zé Guilherme que andava sempre a escrever
no chão e a bater com o dedo no ouvido, falando com o invisível.”
“- Ninguém estava
a reparar nas diferenças e sentiamo-nos todos iguais... até aqueles mais excêntricos,
como eram o caso dos darks vampirescos..."
“- Sim... para esses, então, deveria ser um dos raros
sítios em que sentiam à vontade: cada vez que os viam a passarem na rua, a reacção
das pessoas em geral deixava-me triste. Compreende-los nem nós os
compreendíamos, mas pelo menos respeitavamo-los... mas na rua ninguém
respeitava o modo de eles se expressarem através do seu visual... as pessoas
riam à descarada, sentindo-se protegidas pelo estilo comum que as circundava e
que as faziam ser todas iguais... era vomitante! Em minha opinião, eles embelezavam
o ambiente á sua volta com o seu estilo próprio, as formas de suas roupas, as
rendas brancas nos colarinhos e nas mangas das camisas... simplesmente, lindo!”
A juventude de quem falávamos costumava em tempos idos passar ali o tempo conversando, fumando ganzas, lendo,
tocando guitarra, bebendo cerveja, ouvindo música estranha e barulhenta nos
chamados tijolos (rádios portáteis, mas com alguns consideráveis watts de saída de som), quase como um Woodstok almadense. Jovens que decidiam,
maior parte deles, utilizar o tempo de suas existências em vidas boémias, sem
destino, com o simples objectivo de, ao acordarem, se encontrarem, falarem,
sentirem-se compreendidos, fumarem uns charros e beberem qualquer coisa que
embriegasse e que os fizesse esquecer o estilo de vida que a sociedade lhes
queria impôr. Vivíamos naquele tempo uma poesia inconseqüente de paz e amor.
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Antiga arquitectura do miradouro Luis de Queiroz (como se podia ler numa antiga placa agora inexistente) |
Porém, aquilo não
era o que os pais daqueles jovens queriam para os seus filhos, nem tão-pouco,
aquilo era o que a cidade de Almada queria como fama e paisagem visual. Estavam
a ser demasiados os jovens que se juntavam áquele imenso grupo... e a coisa já
estava a durar há demasiados anos... tantos que alguns jovens que ainda eram
crianças quando os primeiros frequentadores assíduos da relva começaram ali a parar, já estavam, também eles, atraídos e
integrados no imenso grupo fumando seus cigarros, fumando suas ganzás, bebendo
das mesmas garrafas de cerveja que nós...
por isso, o império capitalista, consumista e materialista, defendendo os
seus interesses e essencialmente, os interesses comerciais daquela zona - mais
precisamente, do Centro Comercial M. Bica
- começou a tomar, com argumentos cada vez mais incontestáveis, conta dos
estilos de vida de cada pessoa... e pouco a pouco, aqueles jovens foram sendo empurrados para os espaços limítrofes da
cidade, cada vez mais afastados dos olhos que não os podiam e não queriam ver -
como eram o caso dos turistas, ou das crianças e dos jovens das duas escolas
que existiam ali perto. Então, depois da progressiva pressão executada sob
diversas formas sobre aqueles jovens, todos eles começaram a ser encontrados no
antigo miradouro Luis de Queirós, nas
tascas de Almada Velha... aquele
miradouro, por motivo de degradação, fora, mais tarde, deitado abaixo e, no seu
lugar, construído o novo e moderníssimo Miradouro
da Boca do Vento, em arquitectura ousada, tendo nele sido incorporado o Elevador da Boca do Vento, pelo qual se passou a descer de Almada Velha até ao Jardim do Rio, facilitando o acesso aos espaços de cultura e lazer
que se encontravam umas dezenas de metros mais abaixo, assim como aos
restaurantes que também ali existiam. Mais tarde, toda aquela restruturação e
reaproveitamento dos espaços antigos do Cais
Ribeirinho do Ginjal, fizeram de Almada
Velha um ponto de referência turística de toda a margem sul.
Porém, como o
plano-mestre de todo o reaproveitamento do belíssimo espaço de Almada Velha e do Cais Ribeirinho do Ginjal era muito mais importante do que o modo
como aqueles jovens estavam a viver as suas vidas (modo de viver que em pouco,
ou nada contribuia para o desenvolvimento económico, social, ou cultural da
cidade, sendo eles considerados como simples parasitas da sociedade), eles
acabaram por ser atirados pela
falésia abaixo, até ao único local que restou para eles pararem e poderem se
encontrar e levar aquele estilo de vida: a Barra
Espanhola, mais conhecida pela Tasca
do Sr. Castelo, mesmo à beirinha do Tejo, em Cacilhas.
Ou seja, já nem no Jardim do Castelo aquele tipo de juventude podia parar, pois o
jardim tinha tido toda a arquitectura interior literalmente deitada abaixo
(exceptuando as principais árvores a princípio, mas até elas tiveram o mesmo
fim destrutivo): lá dentro fora construído um restaurante panorâmico, tinham
sido colocados portões nos acessos ao jardim - que eram trancados a partir de
uma certa hora, havendo com guardas no seu interior daquele espaço toda a noite,
o que impedia que o pessoal do Jardim do
Castelo podesse lá parar e lá, longe dos olhares intrometidos que os
acusavam de não quererem fazer nada da vida, fumar as suas ganzas, beber as
suas cervejas e jogar as suas cartas. Mas não eram só os jovens que fumavam
ganzas e bebiam copos que eram impedidos de lá parar: os outros jovens, os
casais, os velhos, as famílias, todos eram impedidos de entrar num espaço
público, num espaço cultural e histórico, patrimônio cultural, tudo devido a
uma ganância económica.
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Nova arquitetura do miradouro da Boca do Vento com elevador panorâmico Foto: Carlos Neves |
O miradouro Luis de Queirós fora, também ele,
completamente destruído para dar lugar ao outro moderno, estando lá,
permanentemente, seguranças de uma qualquer companhia de vigilância, que
ajudavam os turistas estrangeiros e nacionais a fazerem as viagens para cima e
para baixo. Logo, aquele sítio também já não podia ser utilizado pelos
consumidores de haxixe e por todos aqueles que andavam pelos caminhos do Vai-de-Roda e que na vida boémia se
deleitavam.
Toda a
arquitectura em redor da relva, o Parque Urbano Comandante Júlio Ferraz,
fora também, em grande parte, alterada com a criação da praça da Liberdade (praça ampla, sem movimento automóvel, com um
pequeno complexo de lojas e o forum Romeu
Correia incluídos em seu espaço)... o crescente movimento do Centro
Comercial M. Bica - do qual haviam partido as maiores pressões para que aquele
grupo de jovens anarcas (tal e qual
como os mais velhos gostavam de chamar a todos os jovens que eles não
entendiam) fosse afastado dali – estava a alcançar picos em seu auge de
potêncial económico, aproveitando tudo o que era moda (Natal, Páscoa, dia de São
Valentim, Carnaval, Helloween, etc.) para criar campanhas promocionais que
elevassem o estatuto comercial daquele espaço. Ou seja, a relva tinha passado a ser um local, também ele, familiar e
impróprio para os jovens que andavam à deriva na vida. Com toda aquela
transformação da cidade, aqueles jovens acabaram por ser “expulsos” de todo o
lado, até que o único sítio que lhes restou fora a Tasca do Sr. Castelo e a algo escondida zona da Casa da Juventude - Ponto de Encontro,
onde podiam fumar à vontade, beber, apanhar grandes mocas e bebedeiras e ninguém
os chateava.
Foram expulsos,
empurrados, afastados, mas as situações, os problemas que os levavam a viver
com revolta interior aquele estilo de vida improdutiva, não tinham sido
resolvidos. Mas o império capitalista não queria resolver problemas de ordem
espiritual: o império queria era uniformidade e aparência de paz e ordem
pública.
Ainda assim, mais
tarde, tudo isso acabou e maior parte dos jovens dispersaram para trabalhar,
casar, ou juntar-se, terem filhos, acabarem os estudos e as universidades e
entalarem-se definitivamente com um empréstimo bancário... enfim, construirem a
vida que a sociedade queria que todos construissem... porém, muitos deles,
continuavam, mesmo trabalhando e mesmo possuindo uma vida familiar, a terem
enormes tendências para a vida boémia e de consumo de substâncias tóxicas (o
que era bom para a industria tabaqueira e de álcool).
Ou seja, apesar de
encoberto, o problema continuava por resolver. Se aqueles jovens continuavam
consumindo substâncias tóxicas por não estarem satisfeitos com o modo como a
vida se apresentava em sua naturalidade, é porque alguma coisa não estava bem
ao nível espiritual. Só que o totalitarismo era de ordem material e desde que o
povo pagasse os seus impostos, consumisse gasolina e mantivesse a ordem
pública, então, para o império, tudo estava bem.
Desta vida
marginal e vadia vieram a surgir maior parte dos jovens artistas da cidade de
Almada. Não era tão bem sabido entre as camadas artísticas que os maiores
criadores e artistas mundiais haviam nascido da vida boémia, da vida da noite e
do underground urbano? Não era tão
bem conhecido que aqueles que a sociedade adorava como sendo grandes artistas,
tinham maior parte deles dado asas à sua imaginação criativa nos meios boémios,
vádios e underground, tendo, mais
tarde, sido descobertos por alguém que os financiou? Finalmente, não era tão
bem sabido que maior parte daqueles grandes ídolos mundiais erguidos pelos media tinham graves problemas com drogas
e álcool? Porque em Almada seria diferente?
Era uma contradição a sociedade querer acabar com os ambientes que produziam
os individuos que a própria sociedade mais adorava e idolatrava.
Ou a sociedade
estava idolatrando as coisas erradas, ou os indivíduos certos estavam sendo
produzidos pelas vias erradas.
Em relação à questão
da reinserção social destes jovens em termos de actividade social e laboral, eu
penso que o plano de restruturação, reaproveitamento e renascimento da cidade
de Almada fora bem sucedido, porque, em regra geral, a qualidade de vida de
cada um daqueles jovens melhorou. Mas não quer dizer que, daquela transformação
social tivessem sido todos bem sucedidos... o que acontecia era que não dava
tanto para notar os vencidos da vida,
porque andavam todos dispersos.
Eu e o Miguel
sentámo-nos no meio da relva. Ao nosso lado um pai brincava com o filho ainda
pequeno, atirando-lhe devagarinho uma pequena bola que ele deixava sempre
escapar com um pontapé na atmosfera. O Miguel ficou a olhar para aquela cena
com ternura e perguntou-me sem esperar resposta:
“- Achas que ainda
vamos conseguir ter uma vida assim? Uma mulher, uma criança, um trabalho de
oito horas por dia, contas por pagar? Ás vezes isto parece-me tão longe...”
Respondi-lhe de
qualquer forma:
“- Não sei. Quem
saberá o futuro? Mas do modo como eu vejo o mundo eu também não sei se quero cá
colocar uma criança e ter a responsabilidade de a criar...”
“- Tens medo de
não conseguir ser um bom pai?”
“-
Tenho mais medo de ter que me entalar com esses gajos das seguradoras, das
imobiliárias, das finanças, da segurança social... sei que seria um bom pai,
mas tenho a certeza que não seria o escravo ideal desses gajos todos... e isso
é que poderia fazer de mim um mau pai.”
“-
Estás a ver?! Estás a dizer exactamente o que eu disse lá em baixo na Tasca do Castelo. Eu identifico-me
perfeitamente com isso também!” – tranquilizou-me e tranquilizou-se em
confissão.
“-
Pois, claro! Então, porque é que será que existem tantos jovens que não lutam
por construir uma vida do modo que os seus pais lhes ensinaram que deveria ser
construída? Porque é que existem tantas pessoas a desistirem de lutar desde muito
cedo? Ou porque é que existem tantos jovens que caem nas malhas das drogas que
se encontram por aì, pelos cantos da cidade?” - coloquei-o a pensar.
“-
Pois é!” - respondeu seco.
“-
Pois é, nada! Pensa lá porque é que há tanta gente como eu e tu, a desistir de
lutar pela construção de uma vida dentro dos parâmetros que o socialmente-bem-aceite acha que se deve
construir? Porque é que tu queres é fumar umas ganzas, beber uns copos, estar
com o pessoal onde encontras esse tipo de coisas e não lutar por nada? Afinal,
se tu o que queres é ter uma criança e uma mulher, porque é que não crias as condições
para que tal aconteça e aconteça de modo, relativamente, seguro?”
“-
Sim! Sim! Eu sei!” - já estava ele com aquele tom de voz de raiva por se estar
novamente a expôr e a pensar numa coisa que ele não queria estar a pensar. “-
Um gajo acaba por virar escravo do dinheiro e passa a ter que viver e vestir o
que a sociedade aceita como bem, pois, senão, um gajo nem trabalho consegue
arranjar.” - desabafou ele.
“-
Claro! Em outros países da Europa, onde as pessoas e os governos tem uma mente
mais aberta, tu consegues arranjar trabalho, mesmo que tenhas uns piercing's nos lábios, ou no sobrolho...
por exemplo, na Holanda as pessoas não são descriminadas por fumarem haxixe...
elas não são marginalizadas, logo, não se sentem marginalizadas, a sua
auto-estima é mais elevada e conseguem mais facilmente inserir-se na sociedade,
trabalhar, fazer descontos para o estado e deste modo viver uma vida mais
aproximada do ideal de vida que a sociedade nos impinge para sobrevivermos com
alguma comodidade e segurança... se as coisas existem, porque não admiti-las?
Só traz vantagens para a sociedade enfrentar e aceitar esse tipo de coisas. Ainda
assim, vai lá vêr como é que as coisas estão por lá, na Holanda: corrupção-de-alma
á brava, exploração de mão-de-obra estrangeira, submissão e consentimento do
povo holandês a um estado de créditos, empréstimos bancários e sistema de
controle tecnológico absoluto.”
“-
É verdade! Um gajo aqui tem de se esconder para fumar uma ganza e depois, se é
apanhado a fumar uma ganza ainda está sujeito a levar alguma chapada de algum
polícia mais novo do que ele. Para não falar daqueles que têm a vida
prejudicada pelo simples facto de fumarem ganzas. As coisas existem, lidem com
elas” - defendeu ele.
“-
Não as censurem!” - continuei.
“-
Não as reprimam!” - concluiu ele.
“-
Mas uma coisa é certa: tu fumas uma ganza e já não te apetece fazer mais nada!”
– coloquei eu em cima da mesa o outro lado da moeda.
“-
Não me apetece fazer mais nada quando o que tenho de fazer não vai de acordo
com o meu Coração.” – defendeu-se ele. “- Vê lá quando nós trabalhamos as
músicas se fumar ganzas me atrapalha... não me sinto oprimido... ou quando nós
trabalhamos todos na quinta-dos-pauzinhos
(como lhe chamávamos), vê lá se eu aì não trabalhei. Estava à vontade, entre o
pessoal e trabalhava a terra, que é uma das coisas que eu mais gosto de
fazer... por isso, penso que fumar ganzas não é desculpa para a preguiça, ou
para a desmotivação... acredito que isso já parta da pessoa.”
“-
Sim. Concordo contigo. Eu, quando fumo ganzas, não me dá para ficar parado.
Dá-me é logo uma energia, uma vontade de actividade... pois é... tens toda a
razão: já depende das pessoas o modo como elas fumam as ganzas: de um modo construtivo,
ou de um modo destrutivo.”
Entretanto
apareceu o Zacarias, vindo lá de cima, dos lados do forum Romeu Correia.
“-
Então, pessoal?” - comprimentou-nos ele, apertando-nos as mãos de modo firme.
“- O que é que se faz?” - aquela pergunta de sempre...
“-
Olha...” - adiantou-se logo o Miguel – “... este aqui está a começar a escrever
um livro sobre Almada e estávamos agora a falar da postura do pessoal daqui,
que fuma ganzas... que temos de andar praticamente escondidos pelos cantos para
fazer uma coisa que não faz assim tanto mal.”
“- Pelo menos não
tanto quanto o alcóol...” – disse logo o outro.
“- Olha, em Almada, é assim que eu fumo ganzas...” - e com a pedra de
haxixe que já tinha tirado do bolso e sempre em postura algo cómica e
exageradamente provocante e ousada, abriu um cigarro com as mãos para cima e as
pernas abertas, como se quisesse mostrar a alguém lá longe. Eu e o Miguel
começamos logo a rir. E naquela posição provocativa, definitivamente não
escondendo o que estava a fazer, despejou o tabaco na mão esquerda, colocou o
pedaço de haxixe em cima do filtro que tinha entre os dedos dessa mesma mão...
com a outra mão aqueceu a pedra com o lume do isqueiro e depois, colocando a
pedra quente e macia em cima do tabaco, misturou tudo numa sopa de tabaco e haxixe... deitou uma murtalha em cima da sopa com
a cola voltada para baixo... colocou a palma da mão direita em cima da murtalha
e virou de repente, ficando a mão esquerda em cima, a mão direita em baixo e a sopa em cima da murtalha... depois, colocou
um pequeno pedaço rectângular de cartão enrrolado em forma cilindrica no
extremo direito da murtalha e enrrolou-a com a perícia de muitos anos... passou-lhe
a língua na cola e voilá!. Depois,
com o charro na boca, o nariz bem espetados para cima e o rabo espetado para
trás (eu e o Miguel já estávamos deitados, rebolando na relva, rindo às
gargalhadas) acendeu-o em movimento alto
e descoberto. Puxou a primeira passa com força, olhando a ponta laranja que
queimava rápido e depois, fechando os olhos, puxou o fumo que tinha na boca
para dentro dos pulmões já habituados a tanta poluição. Quando, depois de
suster a respiração durante algum tempo, jogou fora toda aquela bafurada, os
seus olhos incharam e tornaram-se vermelhos de repente... e foi assim, descontraido,
já stone que ele falou:
“- Meus caros: cheguei agora do
trabalho. Trabalhei hoje, Sábado, até ás quatro da tarde num trabalho de merda,
para ganhar um ordenado de merda, andando não sei quantas horas em transportes
públicos de merda e agora, com o meu dever de cidadão cumprido e os meus
descontos feitos, disfruto daquilo a que, por liberdade de escolha, tenho
direito: chegar á minha querida relva
e fumar um granda charro.”
Depois
de ter dado mais algumas bafuradas estendeu-me o porro.
Entrei
no ritual.
O
Miguel agarrou-o logo a seguir... e o Zacarias, ainda com o fumo preso dentro do
peito e com as veias do pescoço inchadas pela pressão sanguínea.
Pouco
depois, eu e o Miguel levantamo-nos para ir até Almada Velha petiscar qualquer
coisa. O Zacarias dirigiu-se para casa porque estava na hora de jantar em casa
dos seus pais.
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Rua Capitão Leitão |
Saidos da relva e chegados à zona da praça da
Liberdade, notamos que o movimento de pessoas e de automóveis tinha aumentado,
reflexo de alguns já terem acabado de jantar e estarem a sair de suas casas e a
prepararem-se para a noite de Sábado. Quando lá mais acima passàmos o Quartel dos Bombeiros Voluntários de Almada,
e chegàmos à rua Capitão Leitão, o
movimento já tinha aumentado ainda mais, pois, em nossa lenta marcha, demos
tempo para que mais pessoas saissem à rua: no largo José Alaiz já um certo tipo de juventude de Almada se havia
aglomerado: jovens vestidos numa mistura que faziam lembrar gnomos, duendes,
palhaços, hippies, freak's, num estilo hard-core de influência skate,
trasher's e alguma influência dos
novos estilos metálicos que as tendências musicais espalhavam pelo planeta,
(como eram o caso dos Limp Bizkit,
uma banda com bastante influência sobre os jovens, não só a nível músical e
visual, mas também ao nível dos baixos padrões de consciência que a filosofia de
suas letras destrutivas e caóticas apresentavam às mentes mais influenciáveis):
aqueles jovens eram o seguimento da juventude dos caminhos do Vai-de-Roda.
Ironia: ali mesmo ao lado estavam os
tais antigos soldados do ultramar e os antigos trabalhadores dos velhos
estaleiros que fizeram Almada crescer. Olhavam de lado e criticavam aquele
aglomerado de jovens que fumava ali, à descarada, o haxixe que espalhava em
nuvem o cheiro vegetal por todo o lado onde o vento o quisesse levar... olhavam
de lado e criticavam os jovens que viam chegar em carros de médio-burguês,
vestidos de roupas estranhas e a enfiarem-se dentro dos pubs e bares que haviam por toda a rua Capitão Leitão e por toda a Almada
Velha, dos quais saiam música alta,
estranha, incompreensìvel e horrivel... olhavam de lado e criticavam que “isto
não era nada assim nos nossos tempos” e que o tipo de comportamentos insanos e
despreocupados que os viam ter no meio da rua a “fazerem figuras tristes” não
se viam no tempo em que as pessoas “se davam ao respeito”.
Alguns falavam isto com um copo de
cerveja, ou de whisky na mão. Numa coisa eles estavam certos: as libertinagens
a que os jovens se davam naquele tempo era muito mais desiquilibrada do que aquelas
a que eles se davam quando eram jovens. Só que, quando eles eram jovens os
tempos eram outros e vivia-se debaixo de uma ditadura. Porém, os venenos que
eles consumiam quando jovens e que ainda continuavam a consumir, eram tanto, ou
mais prejudiciais do que aqueles que os jovens consumiam ali, à descarada!
E
não sabiam eles que, entre os jovens, cada vez mais circulavam mais drogas,
isto em termos de quantidade, de qualidade e variedade... não sabiam eles que
cada vez se consumiam bebidas mais estranhas naqueles bares, com as cores mais
berrantes, os ingredientes mais irreconhecíveis... não sabiam eles que as
experiências sexuais entre os jovens estavam a acontecer cada vez mais cedo e de
um modo cada vez mais diversificado, havendo cada vez mais abertamente de tudo:
homossexualidade, bissexualidade, sexo virtual, sexo em grupo, troca de casais,
orgias, etc... não sabiam eles o que os jovens iam fazer quando saiam dali de
carro e para longe... nem podiam, porque, se para mim e para o Miguel algumas
coisas já estavam a ficar fora de prazo e algumas das coisas novas que
apareciam (apesar de as conhecermos e entendermos e até experimentarmos) não se
encaixavam no nosso ritmo e estilo de vida, quanto mais naqueles jovens de
outrora, metidos nos cafés, a viverem o típico saudosismo a que o povo português
tanto se entregava como modo de viver...
Aqueles
jovens eram a nova vaga que invadia Almada
Velha e toda a Almada em geral... jovens cheios de vícios, mas mais
integrados no ritmo semanal aceite pela sociedade em geral... será? As notícias
divulgadas pela propaganda do medo pareciam demonstrar exatamente o contrário,
revelando actos extremos de violência e insanidade. Porém, durante a semana de
produção laboral, era muito mais difícil ver aquela concentração de consumo de
substâncias tóxicas... diferente do tempo em que eu e o Miguel éramos mãos
jovens, em que a concentração e o consumo descarado acontecia durante toda a
semana. Será que aqueles jovens também viviam uma vida ociosa? Se sim, então,
onde andariam durante a semana que nós não os víamos? Maior parte deles
estudava, sabíamos disso... mas, depois da escola, onde andariam que não os
víamos na rua? Agarrados à virtualidade? Em locais longínquos do centro urbano
levados pelos carros pagos pelos créditos em que os pais se metiam? Haviam
certas coisas que eu e o Miguel já não entendíamos...
Quando éramos
jovens e quando partilhávamos o ócio entre a relva e o antigo miradouro Luis
de Queirós, enchiamos toda aquela zona com música de violas, guitarras
portuguesas, jambés e cânticos portugueses... os velhos metiam-se conosco,
comprimentavam-nos e até paravam e mantinham conversa... mas naqueles tempos
modernos... passagem de milénio... por exemplo, aquele que era para aquela
geração o snack-bar "A Tasca do Cão",
tinha sido para a nossa geração, simplesmente, A Tasca do Cão, na qual, em ambiente podre, anarca e rebelde, só
paravam rocker's, punk's, heavy-metal's, freak's,
drogados e outros considerados restos da sociedade almadense e arredores. No
tempo em que eu e o Miguel nos sentíamos a chegar a casa cada vez que nos
aproximávamos daquela zona, os velhos falavam com a juventude chamada perdida,
que enrrolavam e fumava ganzas no meio das ruas de Almada Velha e bebiam cerveja e vinho por garrafas nos degraus das
casas que ficavam em frente às tascas. Os alcoólicos de longa data, os
mendigos, os desprezados pela familia, pelos amigos e pela sociedade em geral,
os loucos e os de neurónios queimados pelos longos anos de drogas farmacêuticas,
os toxicodependentes de heroina, assim como os ditos “normais” que por ali
paravam para fumar, beber, cantar, dançar, atrofiar... todos se sentiam bem ali
e todos se sentiam, minimamente, aceites em sua genuinidade, perdidos em seus
caminhos de vida vazia... os seus passos de caminhos perdidos e de vida vazia
tinham sempre para onde ir ao fim do dia: para Almada Velha onde o pessoal parava, falava, bebia e fumava e onde
se lia, tocava-se e ouviam-se músicas e cantares.
Agora, os velhos já não comunicavam com
os jovens que ali paravam e todos os marginalizados e auto-marginalizados pela
sociedade não tinham onde ir ao fim do dia.
O tempo de nossa juventude estava a
ficar cada vez mais longe. Agora o espaço tinha outro ambiente... outras
pessoas... outros estilos... outros sons... outros cheiros. Quando penetramos
por Almada Velha adentro deparámo-nos
com visões que não costumávamos vêr: jovens vestidos de cores fluorescentes,
com estilos de roupa que pareciam tirados dos videos da MTV, ou de um qualquer
herói dos cartoons da editora Manga. Nos novos bares e pubs abertos onde em tempos foram as
tascas onde bebíamos jerupiga e ginginhas, em vez de manterem conversas uns com
os outros, os jovens preferiam somente beber... a música saìa tecnológica e
artificial, sendo extremamente difícil distinguir um qualquer instrumento musical,
simplesmente, porque não os tinham em suas composições. A tasca da esquina, desde que o antigo dono falecera, estava
transformada em pub, onde agora,
beber, era mais requintadoe colorido... e pela aparência, as bebedeiras eram
mais aceites socialmente. A tasca do
preto era a única que se mantinha tal e qual como era, já que, teimoso, o
preto não morria... mas já devia haver quem andàsse à espera que tal
acontecesse. Lá mais à frente até as antigas lavadeiras tinham sido
transformadas numa discoteca de onde o som saìa alto e estridente, junto com um
poderoso holofote que assinalava nas nuvens a presença em forma de convite,
jogando para o céu um jogo de luzes atraentes que se viam a vários quilómetros
de distância. O que mais destuou no meio de tudo aquilo fôra, aparecidos no
meio daqueles jovens de quinze, dezasseis anos (uns mais novos, outros mais
velhos), abrindo caminho largo por entre a massa jovem, três polícias, ombro-no-ombro,
a ocupar toda a estreita rua de um lado ao outro, obrigando todos os jovens a
encostarem-se às paredes para os deixarem passar: os dois policiais das pontas
fardados com longos cacetetes até abaixo dos joelhos e armados de metrelhadoras
e o do meio, de fato de macaco azul, com cinto verde tipo tropa, com um chapéu
igual ao dos outros, tendo numa mão uma Uzi
e na outra mão a trela dum enorme rothweiler
com coleira de enormes picos. Para quê? Para quê aquilo no meio daquela
juventude? Qual era a vossa ideia? Espalhar o medo? Habituar os jovens a viver
num estado de repressão militar? Ou o quê?
O
mundo era outro... as pessoas eram outras... os ambientes eram outros... os
gostos eram outros... a política tinha-se europeizado... o escudo (a moeda)
tinha-se transformado em euro... o World
Trade Center tinha caído... o Iraque tinha sido invadido pelos americanos...
o Irão estava quase... a quantidade de automóveis em Almada tinha aumentado
insuportavelmente...
...
e depois do Miguel ter-se dispersado completamente no meio da juventude, colando-se
a um qualquer grupo de jovens para fumar uma qualquer ganza que por ali estava
a ser feita, esquecido do petisco para o qual tinha sido convidado de tão louco
que já estava com o haxixe, eu desapareci dali e fugi por Almada acima, pelo
meio de toda aquela confusão visual e sonora... e fugi e as pessoas começaram a
desaparecer... e subi e passei para além do Palácio
da Cerca... e continuei a subir e passei o Cemitério de Almada, o Seminário
e cada vez as ruas ficavam mais silenciosas e o som da cidade cada vez mais
longe...
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Seminário de São Paulo num dos pontos mais altos de Almada |
Lá
mais à frente, antes de começar a curva íngreme que dava acesso ao Cristo-Rei, depois de tantas voltas, por
obra das forças conspiradoras do Universo, encontrei o Vitor que seguia os mesmos
passos que eu, direito à casa do Carocha...
“-
Então? Por aqui?” - perguntou-me surpreso.
“-
Já viste como é que está a cidade?” – insinuei-lhe eu a resposta.
Ele
sacudiu a cabeça em compreensão. Dirigia-se a casa do Carocha pelo mesmo
motivo: em busca daquela paz que nos envolve quando saímos do meio do caos e
passamos a ouvir o cantar dos grilos no meio da noite quente de Agosto. Empaticamente,
caminhamos em silêncio, respeitando, mutuamente, o que cada um vinha
procurar... e encontramo-lo no som suave do mato seco que a fraquíssima brisa
morna fazia mexer... estava no pio da coruja que parecia ir a acompanhar-nos...
no canto das cigarras... no silêncio da música campestre que por ali nos era
concedido ouvir... e em nossos corações...
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Estátua do Cristo Rei de braços abertos para Lisboa e para o rio Tejo. Ponte 25 de Abril |
Acabada a longa
curva, ainda encontramos alguns carros estacionados, silenciosos, com casais lá
dentro, como era habitual por aquela zona, quando anoitecia... mas também eles
estavam respeitar a quietude do Verão que por ali reinava...
Chegados juntos a casa do Carocha, ele veio receber-nos feliz por poder partilhar
companhia com quem ele considerava agradável... pressentiu o nosso silêncio e
convidou-nos a entrar quase sem falar... o que fizémos, para logo de seguida
descobrir que também ele tinha construido ali um silencioso ambiente, de mistério
iluminado por velas que se espalhavam sem ser em demasia... estava quente... a
companhia era boa... o ambiente acolhedor.
Sentamo-nos.
“- Então?”
- escolheu-me ele, brilhando os olhos de criança com um pacífico sorriso - “Que
é que contas?”
“- Olha...” - respondi-lhe baixinho – “...
comecei hoje a escrever um livro.”